Encorajado pelos comentarios da ultima postagem resolvi contar um pouco mais sobre a viagem.
Bem, uma viagem de carro de 3400 km nao pode ficar em branco, sem relato, afinal de contas, nao eh todo dia que se faz uma viagem tao longa assim. Alias, espero nao repeti-la, pois convenhamos, eh legal, MAS UMA VEZ NA VIDA APENAS!
Tudo comecou com uma estimativa de custo como sempre. Considerando que:
- Despacho de carro por trem = 1500 C$D
- Duas passagens de aviao = 2 * 350 C$D
- Que uma viagem de carro de 3400 km fora do inverno se faz em 4 dias
- Hotel = 3 * 150 C$D
- Dirigindo de 7:30 da manha ate as 7:30 da noite
- Gasolina = 230 litros * 0.85 C$D = 200 C$D (consumo de 15 km / litro)
- Comida = 2 pessoas * 40 C$D/pessoa_dia * 3 dias = 320 C$D
- Curiosidade de ver um pouco mais do Canada
- Que somos meio nomades e nossa imigracao meio lusitana (Brasil – Perth – Brasil – Brisbane – Edmonton – ……)
Com isso tudo em mente logicamente resolvemos ir de carro, afinal de contas, NO PAPEL, tudo parecia otimo. Decisao tomada passei a tomas as providencias (planejamento) para fazer a viagem. Fiz uma lista das coisas que queria fazer antes da saida que incluiam:
- Calibrar os pneus (inclusive o step, que acabei por descobrir que era pneu de carro de anao de tao pequeno que era, ponto negativisso para a Honda, deu impressao de mesquinharia)
- Encher o compartimento de fluido de limpar o parabrisa do carro (por vias das duvidas comprei para temperaturas ate – 30 Celsius; por sinal decisao acertadissima)
- Lavar o carro
- Comprar barras de cereal (recomendacao de canadenses em caso de termos um problema mecanico no carro e termos de andar horas com temperaturas negativas para chegar a algum lugar). Comprei umas sete caixas de barra de cereal (afinal quem me conhece sabe que sou exagerado) mas misteriosamente soh seis chegaram ao porta-malas do carro…….
- Comprar um GPS (esqueci o meu em Oakville) dai resolvi comprar outro. Gastei 130 C$D num TOMTOM One no Walmart. Detalhes: Adoramos a “Tomtonha”, apelido carinhoso do GPS, bem melhor que o Garmim, e como eles dizem por aqui “Better safe than sorry” ou em portugues (traducao livre) “Quem tem C&%U, tem medo”
- Comprar mapas no caso da “Tomtonha” dar chilique
- Comprar lanternas (comprei duas, afinal eh que nem aquele ditado “Quem tem dois tem um, quem tem um tem nenhum….”
- Comprar par extra de limpadores de para-brisa
- Encher o tanque
- Levar o LapTop caso a gente parasse um algum hotel com acesso a internet
- Comprar um celular
Minha previsao inicial era de gastar uns 3 dias inteiros dirigindo uma vez que nao somos Pedro e Bino, dupla de “Carga Pesada” e iriamos pernoitar em Regina, Kenora a Sault Ste. Marie. Mas como TODO planejamento falha tivemos que fazer um pernoite a mais. No papel, o planejamento estava um espetaculo, soh faltou imprimir um cronograma e fazer uma curva S de acompanhamento de progresso, mas a realidade foi outra. O planejamento foi pro ralo logo no primeiro dia, domingo. Saimos de casa ao meio-dia, depois do caminhao da mudanca ter deixado a casa em Edmonton e fomos para a estrada. Nossa intencao era fazer Edmonton-Lloydminster em 2 horas, mas por causa de uma tempestade de neve de 40 cm chegamos em Lloydminster depois de 4 horas (vel. media 60 km/h). A neve tava tao pesada que o espaco entre os pneus dianteiros e a lataria ficou repleto de neve/lama congelada, parecia Coca-cola quando vc deixa demais no freezer. Com isso a minha pretencao de chegar a Regina no domingo a noite foi pro saco, acabamos por dormir em Saskatoon.
No dia seguinte saimos 7:30 da manha e tudo ia bem ateh que comecamos a ver uma nevezinha aqui, outra lah, e de repente, era branco para tudo quanto era lado. A coisa ficou tao preta (neste caso tao branca; alias o termo correto eh “White-out”) que se nao fosse um caminhao na nossa frente eu nao ia nem saber aonde a pista acabava. Seguimos o danado do caminhao a 30 km/h por 3 horas ate chegar a Davison. Depois de duas tempestades de neve estavamos de saco cheio, apavorados e arrependidos de termos feito a escolha de ir de carro, nessa hora eh que a gente ve que as passagens de aviao sao muito baratas!
Divididos entre continuar e despachar o carro quando chegassemos a Regina resolvemos cair na estrada. Aos poucos o tempo e a estrada foram melhorando e quando chegamos a Regina resolvemos dar outra chance para a viagem de carro. Nessa fomos ateh Winnipeg onde dormimos.
No terceiro dia pegamos “ice pellets” (um granizo bem pequeno) logo de saida as 8:00 da manha junto com neve e ainda por cima cai na asneira de chegar a estrada indo pelo centro de Winnipeg. Apesar de muito bonito e arborizado perdemos aih uma meia hora facil. Depois de sair da cidade as coisas comecaram a melhorar e proximo de Kenora a viagem passou a valer a pena. Essa regiao eh cheia de lagos e a estrada eh sinuosa e passa por morrotes, ou seja, a cada curva uma vista diferente de um lago novo, lindo!!!! A vegetacao tambem muda bastante e vc passa a ver mais pinheiros e eh mais verde tambem, bem diferente das pradarias (um tedio; alias, quisera eu a viagem pelas pradarias tivesse sido um tedio ao inves de apavorante).
Lah pelas tantas as arvores foram ficando esbranquicadas, mas nao de neve e sim de “freezing rain”. “Freezing rain”, eh MUITO perigoso. Eh chuva, mas quando as gotas tocam o chao viram gelo por conta da temperatura abaixo de zero do chao. Ou seja, mais “estresse”, apesar de ser muito bonito.



A viagem ficou mais emocionante quando fizemos uma parada em um posto de gasolina/projeto de biroska depois de Dryden. Ao parar o carro notamos um indio na porta da biroska, como que fosse o seguranca. Entramos, a Luciana foi pedir dois cafes e eu fui ao banheiro. No que eu fui o indio foi atras, aih o “teatrinho” que fica no fundo da minha cabeca comecou a funcionar “Por que logo agora Poka Hopa quer ir no banheiro?”. Como “cherei” algo estranho resolvi as minhas tarefas a jato e quando estava para sair do banheiro pensando “Ufa, me livrei!” o indio desata a falar………. “Poka Hopa quer carona de homem branco”, brincadeira, o indio falava bem ingles mas ele contou uma estoria triste e queria um carona para ele e para uma amiga ateh Thunder Bay. Meio sem jeito eu disse nao e me mandei do banheiro. Encontrei a Luciana com os cafes, quebrei o recorde mundial “do cafe mais quente a ser tomado no menor tempo possivel”, boca, lingua e garganta queimadas diga-se de passagem, e nos mandamos. Ta louco cara, no meu teatrinho veio logo a imagem do cara que foi decapitado num onibus da Grey Hound indo de Edmonton para Regina no meio da estrada.
Depois daih, fora a “freezing rain” as coisas melhoraram, apesar da estrada ter virado uma pista para ir e outra para voltar com uns trechos de ultrapassagem de quando em quando. Alias, os grandes lagos (o Superior em especial) sao tao bonitos que ainda vale muito a pena a viagem, mesmo no inverno com “freezing rain” + indio e etc e tal.




Pois eh, em suma, a viagem foi bonita, cansativa, emocionante, estressante e acima de tudo viva o aviao!
Um abraco,
Gilberto
Detalhe: 3400 km de estrada muito boa e SEM pedagio…..